Já era madrugada. Inquieta, não conseguia dormir. A cama a qual deitava era a mesma de quando me casei, porém, a frieza dos anos me sondava assustadoramente. Faltava alguma coisa para me aquecer. Nem mesmo os entorpecentes me supriam a falta de meu marido. Eu precisava de seu amor para viver, um amor que não sentia há muito tempo e foi sua falta que me paralisou assim, como uma sonâmbula, um zumbi, um ser vegetativo, oca por dentro.
Cansada e abatida, resolvi tentar uma última vez. Talvez, só e somente talvez tenha restado um pouco de amor em sua alma poética. Talvez o amor que ele costumava escrever e proclamar em voz alta ainda estivesse adormecido em seu ser. E quem se não eu, sua mulher, poderia fazê-lo despertar outra vez?
De pés descalços tentei cessar as lágrimas marejadas que lambiam meu rosto. Caminhei sorrateira pelo corredor escuro e vazio até alcançar as escadas e, feito um ladrão, adentrei o quarto de meu marido.
Podia sentir a tensão escondida sob a moleza de meus braços. Nem sempre fora assim. Aqueles braços já foram energéticos. Meus olhos, porém, continuavam como sempre foram: perdidos. Me espremi num canto, olhando-o em silêncio e fui correspondida à altura: o silêncio dele me afetava de tal forma que cheguei a pensar que eu o atrapalhava.
Em minha cabeça havia um mix de confusão. Eu estava trêmula e se não fosse a vontade que tinha de tentar uma última vez, eu, com certeza, teria desabado. Meu marido rabiscava o papel, sempre de olhos baixos. A tensão crescia em mim. Se ao menos ele dissesse algo... Apenas uma palavra, mesmo que desprezível, me tranquilizaria.
Respirei fundo e me dirigi a sua escrivaninha, abandonando o canto em que eu me encontrava. O silêncio pairava sob o ar e, embora eu preferisse conversar, sabia que a única forma de fazê-lo me responder era a que ele também utilizava como instrumento de trabalho: a escrita.
Peguei um bloco de rascunho que estava entre papéis. Como eu previa, os olhos de meu marido permaneceram imóveis. Escrevi com uma caligrafia rápida e nervosa uma frase curta e direta e, sem nem ao menos arrancar a folha de papel, devolvi ao foco dele todo o bloco. Podia ver que ele lia, totalmente sem menção de qualquer sentimento o meu grito de socorro: "Vim em busca de amor". Como não havia recebido uma resposta, peguei novamente o bloco e rabisquei: "Responda". Devolvi ao foco de meu marido e sabia que dessa vez ele responderia ao meu gemido.
Cada segundo que se passava, fazia com que minha agonia aumentasse. Eu mal acreditava que estava ali, mendigando afeto, já que estava humilhada, resolvi descer ainda mais fundo pelo buraco em que me encontrava: passei as mãos por meus cabelos, deixando minha nuca à mostra, como em um golpe de misericórdia.
Minha agonia era tamanha que eu apertava as minhas próprias mãos enquanto esperava. Finalmente meu marido tomara o bloco e começara a me responder. Sua caligrafia era totalmente paradoxal a minha, era calma e sem pressa. Sempre fomos assim, totalmente opostos, totalmente paradoxos, porém, isso não costumava importar.
Quando a caneta que meu marido manobrava tão bem parou de arranhar o papel, lancei-me sobre o bloco com avidez. Sua resposta era amarga e, infelizmente, não surpreendente: "Não tenho afeto para dar".
Deitei o bloco na mesa com calma e zelo, de modo a refazer-me de meu ímpeto. Pude perceber que meu marido surpreendeu-se com minha atitude. Pensei em desistir ali, naquele instante, mas algo falava mais forte dentro de mim, acredito que era a falta de seu amor que avassalava sem piedade.
Ainda trêmula, dei a volta na mesa, postando-me atrás de sua cadeira. Sedutora, arrastei minhas unhas pelo dorso de seu pescoço, roçando de passagem suas orelhas. Meus dedos entravam por seus cabelos, desde a nuca, raspando-lhe o couro. Um jato de esperança rasgou meu peito quando meu marido subiu seu braço e fechou sua mão sobre a minha, entretanto, esse jato logo se despedaçou, porque ao invés de me puxar para ainda mais perto de seu corpo, ao invés de me corresponder, ele desceu lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento de meu braço e, num gesto claro, abandonou a minha no ar, como se retirasse de perto de si um objeto corrompido, frio, perdido entre seus cabelos.
Àquela altura eu sabia que minha última chance era descer o mais profundo possível no buraco em que eu me encontrava. Eu sabia que ele pensaria que era apenas uma cena de teatro, uma atuação, só que eu estava sendo sincera, eu estava sendo verdadeira em cada gesto, mesmo que não o tivesse feito diversas vezes anteriormente.
Em um só lance desloquei-me para a janela, soltando laço de minha camisola num vôo largo. As venezianas estavam fechadas, não havia nada para eu ver e na realidade, eu não queria ver nada, aliás, eu estava contente por estarem assim, porque eu estava envergonhada e, com as venezianas fechadas, poderia ficar ali e tomar o tempo que precisasse, procurando coragem para me virar e tentar fazer com que meu marido tivesse alguma reação, que me desse o amor que vinha buscar.
Enquanto procurava coragem, de costas para meu marido, mordia meus dedos. Ao me virar, meus seios flácidos estavam tristemente expostos. Um traço de demência pervertia-me a cara. Ele retomou seu rabisco, totalmente não surpreso com minha última performance.
Eu espalmava as mãos na superfície e debaixo da mesa, de forma a chamar sua atenção. Meu marido, porém, continuava a rabiscar o papel. Assim como eu, ele tinha os pés descalços e, aproveitando-me da situação, toquei com a ponta de meus dedos a sola de seu pé, sondando, clandestina, sua pele no subsolo. Como meu marido não me interrompeu, eu estava mais segura, assim como a ponta de meus dedos os quais ordenei que subissem sob o pano de seu pijama, num gesto próspero e devasso, esfregando na densidade de seus pêlos, subindo por sua perna afoitos, lambendo-a feito uma chama.
Fui perdendo o pouco de segurança que adquirira quando meu pé se atacou voluntarioso na barra e, por mais que ele brigasse e resistisse, meu marido se desembaraçou dele, assim, sem pressa e recolheu os próprios pés, que cruzou sob a cadeira.
Quando ele ergueu os olhos para mim, eu tinha postura de pedra, ainda que eloquente. Minha cabeça estava jogada em arremesso para trás, meus cabelos, escorridos, sem tocar as costas. Meus olhos estavam cerrados, dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco de minhas pálpebras e minha boca estava escancarada.
Meu ser tremia por inteiro, inclusive meus dentes, parcialmente à mostra. Eu tentara de todas as formas possíveis e não obtivera sucesso. Segurando as lágrimas e não suportando a dor, que fazia meu corpo latejar, desloquei-me, quase solene em direção à porta em uma arrancada súbita, logo, porém, freei o passo. Parei. Fazemos muitas paradas na vida, mas aquela não era uma parada qualquer. Aquela seria a minha última parada e eu a remetia a uma tarefa trivial que cumpriria quando o dia clareasse.
Meu marido não descobriria fácil que o que interrompera meu andar foi um último olhar de súplica, uma última tentativa, um último pedido por seu amor. Um enorme desperdício! Mal sabia ele que aquela seria a última vez que eu o olharia demonstrando o último traço de amor que eu sentia por ele ou de qualquer outra forma.
Eu entendia a progressiva escuridão que se instalava para sempre em minha memória e por isso fiquei ali, enquanto ainda podia fazer-lhe companhia, desfrutar disso, mesmo que distante e da mais cruel forma possível.
De ombros caídos, deixei o quarto feito sonâmbula, feito um zumbi, um ser vegetativo, oca por dentro, bem como havia entrado. De volta a meus aposentos, abri a veneziana sem me preocupar com o seio, ainda tristemente exposto. Embora eu queira que este conto tenha um final feliz, não posso mudar a realidade, infelizmente. O sol já vai nascer e o fim dessa história aproxima-se bastante de suas características: trágico e púrpuro. Seu destino, porém, afasta-se antitéticamente do meu.
Texto feito em forma de diálogo com o texto "Hoje de Madrugada" de Raduan Nassar.